Você é vocalista? Se for, deve já saber que conversar com o público não é uma tarefa fácil. É preciso muita desenvoltura para conseguir unir a linguagem corporal e psicológica que um show insano exige. Mesmo que não seja um vocalista, eu sei que você entende essa empreitada dura. E se houvesse um passo-a-passo para seguir?

“Na verdade o Pelé, calado, é um poeta”,  

Romário

Pisou no palco, a galera toda empolgadaça, a banda toda animada para começar sob aquele zumbido suave de microfonia, o batera começa a contar com as baquetas, você cola no microfone, abre a boca e… fala a maior merda.

O clima gela na hora. A plateia cola o pé no chão e fica olhando sem saber se ri ou se chora para você. Atrás de você ouve um discreto “putz…” e lá no fundo da plateia, um bebê chorando.

Este é o manual de instruções para não passar vergonha entre uma música e outra e encantar todas as plateias.

Apresente-se antes de conversar com o público

Apresentar-se é antes de tudo, parte da boa educação. Você não conhece alguém na rua e já chega chegando, não é? Isso se chama assédio (potencialmente, estupro!). Além disso, cada show é uma nova oportunidade de angariar mais fãs. Em qualquer plateia haverá alguém que ainda não te conhece.

Mas isso não é assim tão simples.

“Oi, nós somos a banda tal” é simples, rápido, direto ao ponto, não atrapalha as músicas mas também é imediatamente esquecido.

Seja lembrado: diga de onde é a banda, que vocês estão felizes por estar ali, que já tocaram naquele local, nunca tocaram, etc. E a não ser que haja um mega banner que cubra todo o fundo do palco, diga de novo. Aprenda a conversar com o público.

Depois da quinta música, ninguém vai lembrar o seu nome. Aí é a hora de fazer um quiz. Desafie alguém da plateia a dizer o nome da banda no microfone e se acertar, dê um CD, adesivo, botton, camiseta. E depois da décima quinta música, ninguém lembra de novo. Diga de novo.

Lembre-se que o Johnny Cash nunca deixou de se apresentar.

Explique a música

Ok, isso tem que ser muito, mas muito bem dosado no shows. Você não é a wikipedia e suas músicas não deveriam vir com bula, posologia e efeitos colaterais (a não ser que a piada seja essa).

Conversar com o público e explicar que vocês usaram a influência de fulano e que na música tem um arranjo assim e uma passagem tal e tal é a receita mágica para colocar todo mundo para dormir. Explique que vocês foram inspirados por alguma coisa, algum momento da vida de vocês, alguma experiência. E só.

Duas frases é mais do que o suficiente. Se você conseguir construir uma história que antecipa a música (alguma coisa cuja resposta esteja nas letras), vai ser fantástico. Você terá uma plateia prestando atenção na letra para descobrir o mistério. E prestando atenção na letra é o caminho mais rápido para eles irem embora cantando o refrão.

Só não faça isso com todas as músicas. Três ou quatro vezes no mesmo show já está de bom tamanho. Arrume outros assuntos também para conversar com o público.

E lembre-se sempre que você não faz “música autoral” (isso é um porre!), você faz música que vocês criaram com muito carinho especialmente para você! (dedo apontado para as pessoas mais empolgadas)

O que nos leva a…

Interaja!

conversar com o público e interagir

Se fosse para ficar quietinho no meu canto, eu via seu show no Youtube. Se eu estou comprimindo meus órgãos internos na grade do seu show, levando encoxada e respirando o suor e bafo alheio é porque eu também quero brincar.

Não seja o dono da bola. Coloque a plateia para cantar e gritar, bater palma, xingar o presidente, fazer coro, etc, etc. Quer ter fã, fã de verdade? Faça como o Freddy Mercury e deixe todas as 50 mil pessoas na plateia achando que são seus melhores amigos. Você vai se apresentar, vai contar histórias, vai dividir suas maiores emoções então agora é hora de ouvir também.

Faça perguntas que as respostas possíveis sejam “sim” ou “não” e você verá que dá para conversar sobre qualquer assunto.

Seja você mesmo, mas seja a melhor versão de você

Aqui é a hora de se emocionar. Novelão mexicano mesmo. Lágrimas se você conseguir. Sim, as plateias vão responder bem a isso, especialmente se você estiver sentindo algo que deva ser comunicado.

É o seu maior show até então? Tá gostoso o clima no palco? Tem um monte de gente bonita e gostosa se pegando e você está com sentimentos lascivos em ebulição de forma que sua vó morreria de vergonha e desgosto? Manda ver.

Autenticidade faz toda a diferença, então se está dentro de você, ponha para fora. Se não está dentro, mas muito perto, ponha para fora também. MAAAAASSSSS… Para evitar falar umas groselhas como nos referimos no início deste tratado de boas maneiras, convém preparar-se de antemão.

Mas como eu vou preparar de antemão minhas emoções extremas? – Você me pergunta.

Ora, eu respondo, não prepare emoções. Prepare discursos curtos para usar caso surjam essas emoções. Ensaie para conversar com o público. Tenha um roteiro para o seu show. Fica falso? Só se você estiver em um daqueles dias infernais e for tentar dizer que este é o melhor show da sua vida. Aí você guarda o texto para uma próxima ocasião. Se for o momento de dizer algo, diga o que está ensaiado. Com o tempo você vai ganhando as manhas de improvisar sem vacilar.

Converse com os outros integrantes

Sabe aquela puta zoeira que vocês aprontam nos ensaios, nos intervalos ou nas vans entre um show e outro? Leve isso para o palco. A plateia vai pirar como vocês tiram sarro um do outro mas na verdade são uma grande família.

Mas, da mesma forma que seus dramas emocionais precisam ser ensaiados, seus diálogos para conversar com o público também. Mantenha-os curtos e prepare-se para manter o espetáculo funcionando bem. E nunca, jamais, em hipótese alguma, nem de baixo de porrada inicie um diálogo com alguém que está sem microfone para responder. A função do diálogo é para que o público ouça e ouça bem. A não ser que a resposta seja gestual (tipo dedinho do meio erguido, cara de felicidade, choro fingido, etc).

Sim, a música é uma arte performática e cada mínimo movimento pode vir a ter 100000000000 de visualizações no YouTube. Prepare-se como se fosse uma peça de teatro.

Conheci durante a faculdade um cara que era MUITO fã do Iron Maiden. Ele tirou férias para acompanhar uma tour do Iron pelo verão europeu e voltou relatando como os shows eram ensaiados.

Não só as posições de palco eram as mesmas (para tornar possível a vida do iluminador), mas também as piadas e comentários que eram contados. Li relatos semelhantes do Metallica e presenciei uns dois ou três shows do Angra que também eram bem certinhos.

Hora de faturar!

Então você está mandando um musicão atrás do outro, só sucesso, batendo altos papos com o público. Não só a plateia já sabe o nome da banda como estão berrando há horas e rindo das suas piadas. Isso é sinal de que o amor está no ar e já dá para ir para o abate final. Aqui é que você vai realmente fechar a venda.

Lá para último quarto do show você precisa garantir que o público vai voltar e você vai aumentar o patrimônio da banda. E por patrimônio, quero dizer duas possibilidades:

Me add lá!

A banda tem redes sociais. Tem né? Você não acha que o trampo vai cair do céu, né? Ah, bom, tem sim. Ótimo. Na sua frente uma legião de pessoas está sorrindo para você, encantadas com o seu show. Agora é a hora de lembrar que cada um desses sorrisos leva um celular com 4G no bolso. Hora de conversar com o público.

Fale da sua página no Face, seu canal no Youtube. Peça para as pessoas tirarem uma foto da banda e marcar uma hashtag. Se vocês estiverem no pique, podem até sortear entre quem utilizar a hashtag um CD, camiseta, umas cervejas ou entradas para o próximo show de vocês. Cada plateia cheia é uma oportunidade aumentar seus números e consolidar sua base de fãs.

É claro que, se nessa hora o tal banner com o nome da banda estiver atrás de vocês com as informações de redes sociais, a vida fica muito mais fácil.

Dinheiro!

Hoje em dia você pode colocar a marca da sua banda em qualquer coisa: mouse pad, canecas, canetas, guarda sol, cooler de cerveja, garrafa de cerveja, facas de churras, camisinhas, bolas de boliche e até em caixões. Se você duvida, pergunte para o Kiss.

Mas se ainda é cedo para encarar uma onda de agente funerário e você quiser vender produtos mais contidos, agora é a hora. Avise para o público que a banquinha está logo ali do lado com camisetas, DVDs, bonés e que vocês estão indo ali depois do show para um abraço, uma foto e um autógrafo. E vá. Fique de plantão. O trampo não termina no último acorde.

Eu trabalhei um bom tempo com o Derico, o hilário saxofonista do Programa do Jô Soares. Ele sempre teve essa pegada em todos os shows. Ele anunciava o CD que estaria a venda quatro, cinco, seis vezes (o que tornava a coisa cada vez mais engraçada).

E então anunciava que estaria ao lado do palco para vendas, autógrafos, abraços e o que mais viesse (não perdendo o ritmo da diversão, ele dizia que poderiam pegar, beijar, apertar e rasgar que ele tinha até levado uma outra camisa por precaução). E como era de se esperar, a fila durava uma hora e meia de afagos.

Sentiu como ficar famoso não é nada fácil?

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