Um número cada vez maior de músicos no Brasil estão tratando seus projetos musicais como um negócio que precisa ser economicamente viável. E eles estão incorporando o perfil do músico empreendedor para transformar essa paixão pela música em empreendimentos diferenciados e inovadores.

É fato que a grande maioria dos músicos e artistas possuem muita dificuldade em sair da zona de conforto e aceitar, definitivamente, que o mercado musical é cada vez mais justo com quem possui uma mentalidade empreendedora, com planejamento, gerenciamento e estratégia.

De uns anos para cá, vários negócios surgiram para apoiar e capacitar estes músicos empreendedores, veja através de canais do Youtube ou plataformas próprias. Fico emocionado ao perceber que o número de músicos empreendedores que deixam de lado modelos de negócios antigos e passam a planejar seus próprios modelos é cada vez maior.

O conceito de musicpreneur, o músico empreendedor

O termo musicpreneur (musician = músico + entrepreneur = empreendedor) que adotamos aqui na Gestão de Bandas para falar dos músicos empreendedores, é uma síntese que adoramos e reflete muito bem a nossa missão como negócio: método, processo ou operação que consiste em reunir elementos diferentes, concretos ou abstratos, e fundi-los num todo coerente.

Esse grande avanço do empreendedorismo pode ser explicado pelas startups. De acordo com a Wikipedia:

“Uma startup é uma empresa emergente que tem como objetivo desenvolver um modelo de negócio escalável, repetível, em condições de extrema incerteza, ao redor de um produto, serviço, processo ou plataforma. O modelo de negócios é a maneira como a empresa emergente gera valor.”

Startup não é sinônimo de empresa de tecnologia no Vale do Silício. A nossa percepção é que um projeto musical nunca teve tanto a ver com o conceito de startup. A música é algo escalável, a partir do momento em que você transforma ela em um arquivo digital ou audiovisual, ela pode ser usada por centenas de milhares de pessoas (bilhões de pessoas na verdade) em qualquer lugar do planeta.

É por isso que cada vez mais torna-se necessário a figura do músico empreendedor, para transformar as condições de extrema incerteza através de gerenciamento e saber utilizar ferramentas (modelos de negócios, mapas mentais) para gerar valor a música produzida.

Neste artigo, quero falar de 5 elementos que caracterizam a mudança para o músico empreendedor. 

1. Proposta de Valor

Literalmente você nunca ganhou dinheiro com música – você sempre ganhou dinheiro com coisas em torno da música.

Talvez você esteja me chamando de louco, mas vamos lá.

O Spotify paga hoje cerca de US$ 3,97 a cada 1000 vezes que cada música é ouvida, em média. Digamos que você é uma banda com quatro sócios e que possuem R$12.000,00 de despesas fixas mensais, incluindo pró-labore para cada um. Para você cobrir estes custos, você precisaria ter 1.007.556 milhões de audições por mês, considerando o dólar a R$4,00 e sem incluir outras taxas. O iTunes paga melhor, cerca de US$ 7,83 a cada 1000 vezes que cada música é ouvida, em média (valores levantados em 13/04/2018).

É devido a este cenário que muitos artistas tem buscado, incessantemente, agregar valor a produção musical: shows, forte produção audiovisual, agregação da audiência, temático, presença de palco, carisma, simpatia, forte relacionamento com fãs etc. Os músicos empreendedores estão deixando modelos de negócios ultrapassados e apostando em diferenciação para agregar valor aos seus consumidores.

Como o músico empreendedor deve acertar na agregação de valor

Uma excelente maneira de acertar na agregação de valor é testar com a sua tribo. Em vez de soltar de uma só vez um álbum, show e clipes prontos, muitos artistas estão envolvendo seus fãs para refinar todo o aspecto de produção musical, audiovisual e de shows. Deixe seus fãs definirem o que tem valor para elas ao invés de você tentar impôr isso.

Essa colaboração da comunidade ajuda você a identificar a essência do hit, refinar o projeto musical e evitar gastos desnecessários de gravação para uma audiência que não tem interesse em consumir aquilo, naquele momento.

Por que esse conceito é essencial? Porque a percepção de valor do público muda do produto final (registro final) para a experiência do processo criativo (demo de uma música ou álbum). O público quer sua história, além de música boa.

2. Recursos limitados

Quando falamos de recursos, pensamos imediatamente em dinheiro. Quando falamos de recursos precisamos também falar de recursos tecnológicos, recursos humanos, recursos materiais e mercadológicos.

O dinheiro é um recurso fundamental para o músico empreendedor. Tão fundamental que torna imprescindível ter o controle destes recursos seja através de uma planilha de fluxo de caixa ou por algum software, como a Conta Azul.

Um grande conceito de startups é a pegada “enxuta”. Isso significa que buscam sobreviver e testar seus produtos e serviços controlando diariamente seus custos e sobrevivendo da maneira mais simples possível para gerar negócios e desenvolver a sua proposta de valor. Boa parte dos processos são terceirizados e utilizados apenas quando necessário. De nada adianta manter um quadro funcional se elas não tem o que fazer.

Porém, não é só de recursos financeiros que determina o sucesso de um projeto musical. No passado, as gravadoras investiam milhões em novos talentos e apenas uma pequena parcela destes artistas traziam o retorno financeiro desejado. 

Hoje, os recursos humanos tornaram-se tão importantes quanto os recursos financeiros. Trazer para o seu projeto musical pessoas que agreguem valor e profissionalismo se tornou tão escasso quanto dinheiro. Investir R$50,000,00 com pessoas erradas pode ter o mesmo efeito de R$5.000,00 com as pessoas certas.

Graças a tecnologia, hoje é possível gravar, mixar, masterizar e distribuir uma música menos de R$1.000,00. Criar planos de negócios e projetos musicais de forma totalmente visual e dinâmica também é possível, bem como controlar o fluxo de caixa com planilha inteligente do excel e diagnóstico de projetos musicais quase que de forma gratuita ou com valor muito acessível.

3. Objetivos

Muitos artistas e músicos não conquistam seus objetivos porque simplesmente não possuem metas!

Se não virar hit, se não projetar a banda no mainstream no lançamento do álbum, o artista fica desnorteado e desanimado. É insano esse tipo de pensamento, mas é muito comum o artista comum criar expectativas surreais. Eu diria que é ficar imaginando como seria a vida se ganhasse na Mega-Sena sem apostar semanalmente.

O músico empreendedor compreendeu que é inviável apostar esse caminho e começou a desenvolver metas e objetivos realistas projetados a partir do seu modelo de negócios. Possui metas e objetivos claros para cada lançamento, para cada turnê, para cada coisa que faz. Isso ajudou ele a focar no que realmente importa, a canalizar a energia para coisas que podem ser medidos e vibrar pelas conquistas.

Por exemplo…

Já participei de projetos onde a meta era conquistar 50 novos fãs para a base para ofertar a esteira de produtos para novos clientes. Outros que tinham como objetivo alcançar 10.000 visualizações no Youtube com apenas R$500,00 em anúncios pagos. E toda vez que a meta era batida, era comemorada como um gol.

Talvez para você 10.000 visualizações no Youtube não é nada, mas para o projeto deles, era, porque essa meta iria gerar benefícios levantados no projeto musical que para você é desconhecido: 10.000 views concentrados em apenas uma cidade e região metropolitana, com oferta para se cadastrar no final do vídeo para receber a discografia gratuita e concorrer a uma promoção. Tais dados seriam transformados em informações para o material comercial e usado na negociação com casas de show naquela cidade.

Utilize nosso Project Music Canvas para desenvolver projetos orientados para benefícios e objetivos. No curso Musicpreneur eu explico como utilizar o Project Music Canvas para micro e macro projetos musicais.

4. Modelos de Negócios

Um modelo de negócios descreve como o seu projeto musical cria e entrega valor para a sua tribo e seus clientes. O músico empreendedor precisa ter um modelo para alcançar seus objetivos e metas.

Nada é mais frustrante para um empresário, selo ou investidor do que um artista pedindo apoio, patrocínio ou investimento sem saber sua proposta de valor, sua segmentação, os canais de relacionamento com o público, suas fontes de receita, custos etc.

A grande sacada em desenvolver um modelo de negócios é a possibilidade que você tem de enxergar o todo e manipular o modelo de acordo com as inesperadas demandas internas e externas do seu negócio. É extremamente fácil visualizar as suas principais operações e principalmente, focar no que realmente precisa ser realizado.

É preciso conhecer o mercado

Percebo também muitos artistas desenvolvendo conteúdos para a internet que não agregam valor para sua audiência. O músico empreendedor precisa olhar para a sua audiência, perceber o que ela quer ou deseja, criar isso e utilizar os canais que a audiência usa para entregar o que elas querem. Gastar tempo e dinheiro com mídia física sendo que o seu público não usa mídia física é um excelente exemplo do tempo e dinheiro que você irá economizar. Se o seu público é muito jovem, será que realmente eles estão mais presentes no Facebook ou no Snap? Ou no Instagram?

Utilize o nosso Music Model Canvas para criar novos modelos a partir de algumas ideias, validando as hipóteses uma por uma. Você ficará surpreso com o quanto estava errado sobre quem é seu público, o que eles estariam dispostos a pagar, qual é o valor do seu negócio de música.

Importante: o músico empreendedor é conhecido não apenas por contemplar um modelo de negócios, mas executar. Assim que você desenvolver um modelo que seja compatível com os seus recursos, comece a executar. Se você possui uma proposta de valor, pesquisa qual tribo ou segmentos de clientes que consomem este tipo de proposta de valor.

5. Humanização

Aqui está a grande oportunidade para os músicos empreendedores. Hoje, os artistas que se destacam são interessantes e autênticos, mas não por truques de marketing. Aquela aura de “fale com meu assessor” ou “não me toque” é coisa do passado.

Projetos musicais interessantes humanizam seus relacionamentos, se comunicam pessoalmente com seus fãs e seguidores nas redes sociais, dão as caras em lives e circulam entre as mesas das casas de shows, chamam gente pro camarim, tiram fotos de boa.

É lógico que a partir do momento em que o artista agrega para si o conceito de celebridade, estas ações serão repensadas para manter a sua integridade física. Por isso, muitos estão usando o digital para trocar ideias e conversar com as pessoas, se tornando acessíveis. Você é uma marca pública em andamento, não finja ser um perfil corporativo falso.

O músico empreendedor hoje sabe que é o grande ativo que possuem é os fãs, é a identificação com a sua tribo, são histórias de vida cantadas para milhares/milhões de outras pessoas que aguardam por uma voz externa e as alivia.

Converse com seu público, compartilhe histórica, ouça o que eles tem a dizem, seus desejos, seus medos, suas frustrações, seus sonhos. Busque, antes da grana, atender e entender o que as pessoas precisam e se for possível, seja a voz que elas tanto procuram. 

Planejamento e Estratégia